Revue Web

ESSAIS

Sartre, Simmel e uma "fenomenologia social" das crônicas folhetinescas

13 mars 2005

Resumo : Pensar o passado no processo de formação da subjetividade é “situar” o sujeito no espaço e no tempo e, a partir do presente, reconstruir este passado em função de um projeto que se evidencia. A proposta deste texto, partindo dos direcionamentos metodológicos fornecidos por Jean-Paul Sartre e Georg Simmel, é discutir a entrada da idéia de modernidade no Brasil através de crônicas publicadas nos jornais do Rio de Janeiro nos meados do século XIX e como, neste contexto, a relação indivíduo e sociedade é crucial na formação da subjetividade moderna. O texto procura mostrar que a relação entre meios de comunicação e subjetividade pode ser compreendida através de uma “fenomenologia social da crônica” na tentativa de ampliar as possibilidades de compreensão do mundo em que vivemos e da vida que decidimos viver. O surgimento e a conseqüente entrada da cultura do consumo no Brasil no século XIX, produziu uma nova experiência existencial e, ao mesmo tempo, uma ruptura com o modo de viver e se relacionar até então.
Palavras-chave : Fenomenologia ; Subjetividade ; Crônicas ; Cultura do consumo.
Abstract : Sartre, Simmel and a social phenomenology of « pamphlet chronicles ». Thinking about the past in the process of subjectivity formation is “to place” the subject in space and in time and, from the present on, reconstruct that past in terms of a project that becomes evident. The proposal of this text, starting from the methodological directions provided by Jean-Paul Sartre and Georg Simmel, is to discuss the entrance of the idea of modernity in Brazil through the chronicles published on newspapers in Rio de Janeiro around the middle of the 19th century and how, in that context, individual-society relations are crucial to formation of modern subjectivity. The text attempts to show that the relation between means of communication and subjectivity can be understood through an “social phenomenology of the chronicle” in an attempt to expand the possibilities of understanding of the world we live in and of the life we decide to live. The entrance of the culture of consumption in Brasil in the 19th century, produced a new existential experience and, at the same time, a rupture with the mode of living and with the mode of relating until then.
Keywords : Phenomenology ; Subjectivity ; Chronicles ; Culture of consumption
Résumé : Sartre, Simmel et une phénoménologie sociale des « chroniques de feuilletons ». Penser le passé dans le procès de formation de la subjectivité, c’est "situer" le sujet dans l’espace et le temps et, à partir du présent, reconstruire ce passé par rapport à un projet qui se révèle. L´objectif de ce texte, dont le fil rouge est donné par les directions méthodologiques fournises par Jean-Paul Sartre et Georg Simmel, est de discuter l´entrée de la modernité au Brésil à travers des chroniques publiées dans des jounaux de Rio de Janeiro au milieu du 19e siècle et de voir comment, dans ce contexte, le rapport entre l´individu et la société est devenu crucial dans la formation de la subjectivité moderne. Le texte vise à montrer que le rapport entre les moyens de communication et la subjectivité peut être compris à partir d´une "phénoménologie sociale" qui essaie d’étendre les possibilités de compréhension du monde où l´ont vit et de la vie qu´on décide de vivre. L’entrée de la culture de consommation au Brésil au 19e siècle a produit une nouvelle expérience existentielle et en même temps, une rupture avec le mode de vie et relationnel.
Mots-clés : Phénomenologie ; Subjectivité ; Chroniques ; Culture de la consommation.






  • Texte en PDF





Masquez la colonne info

Ver o sumário : SARTRE 

 

Meu interesse, do ponto de vista da Psicologia Social, ao estudar crônicas publicadas em periódicos no século XIX, está diretamente relacionado à inserção e divulgação do conceito de modernidade entre nós, especialmente no que diz respeito à dinâmica humana que as crônicas nos apresentam, sendo parte dela relativa ao projeto de modernidade que está se instalando no Ocidente naquele momento. Penso também, que para melhor compreender o presente, temos que resgatar fragmentos do passado e reconstruir, a partir deles, o caminho por nós traçado e definido enquanto sociedade e singularidades sociais. falar do passado é partir de fragmentos, de pedaços esparsos de memória circunstanciada, memória individual e social, presentes também em papéis, monumentos, jornais, livros, cartões, medalhas, objetos de todo gênero, nos quais a humanidade deixou impressa as marcas do que foi feito.Acredito que parte das respostas que buscamos para o nosso modo de vida contemporâneo se encontra no passado, no que diz respeito à sociedade e aos sujeitos que a compõem e que, nesse sentido, é adequado dizer com Sartre, que o homem não possui outro legislador senão ele próprio.

Historiadores, psicólogos e psiquiatras, em suas atividades profissionais são, talvez, os maiores interessados em desvelar o passado : uns na tentativa de descobrir o sentido do que a humanidade produziu, através do que ela foi deixando como registro de sua passagem, outros, na busca da constituição do percurso de um único ser humano que dele rastreiam as pegadas na fala deste mesmo homem. Naquele que diz e no que silencia, há, em cada um, um passado a ser desvelado que pode ser a chave para se compreender o que ele construiu como o sentido de si mesmo.

Sartreanamente falando, o passado nos aparece "situado", um horizonte que vamos lentamente deixando para trás mas cujas recordações carregamos ao longo da vida. Ele é fragmento, pedaços distribuídos em um número grandioso de elementos cuja totalidade, às vezes, acreditamos ter. Do ponto de vista da Psicologia, o passado é fundamental na compreensão do presente que se vive, na tentativa de pelo menos vislumbrar como chegamos a ele e como nele o futuro se desdobra. São situações carregadas de sentimentos misturadas a imagens, livros, cartas, cheiros, sabores, lugares, cujo vínculo com o passado acaba nos remetendo a um tempo que acreditávamos esquecido. Remeter-se a estes fragmentos dispersos da história de cada um, é ter clareza de que partimos do presente para lançar nossos olhos a esses momentos cristalizados e dar-lhes um novo sentido, retirar sua capa de imobilidade conectando-os em função de um projeto que se evidencia, que não é só o da singularidade de cada um mas que pertence ao mundo social no qual estamos inseridos e do qual não temos como escapar. Desta forma, na correlação homem/mundo, é possível perceber, ao mesmo tempo, um e muitos passados como parte do desenrolar da vida em todos os seus contextos.

Com um pé apoiado no Existencialismo sartriano e na Fenomenologia, e outro na tentativa de estabelecer um diálogo transdisciplinar com as áreas da Ciências Humanas e Sociais, parto do princípio que as criações humanas são essencialmente "produções de sentido que expressam de forma singular os complexos processos de realidade nos quais o homem está envolvido, mas sem constituir um mero [reflexo] destes" (González Rey, 2003, p. IX). Integram, portanto, os diferentes aspectos do mundo em que o sujeito vive e aparecem, em cada um destes sujeitos ou do espaço social concreto, de forma única, isto é, "organizados em seu caráter subjetivo pela história de seus protagonistas" (id. ibid.). Se as criações humanas são produções de sentido, então é fundamental buscar através de linguagens diferentes, que podem se articular a construções teóricas, uma maior inteligibilidade em relação à subjetividade humana e sua representação nas multifacetadas atividades e nos diversos contextos em que a vida concreta destes indivíduos se desenvolve. Neste sentido, buscar articulações entre os saberes da Psicologia, História, Literatura, Comunicação e Sociologia é iluminar a cena da história concreta dos homens, num esforço de compreensão que transcende fronteiras convencionais das disciplinas acadêmicas em direção a um conceito das Ciências Humanas e Sociais, buscando uma "unidade de percepção", há muito perdida numa pulverização empobrecedora dos saberes que tem o homem como centro. Temos isto como nosso objetivo e prazeiroso desafio. É também apontar, como afirmou Marc Bloch (2001), que "Toda ciência tomada isoladamente, não significa senão um fragmento do universal movimento rumo ao conhecimento" (p. 50) e que, "as investigações históricas [bem como as psicológicas] não sofrem de autarquia. Isolado, nenhum deles [especialistas] jamais compreenderá nada senão pela metade, mesmo em seu próprio campo de estudo" (p.68).

Como psicóloga, interessada na dinâmica humana contemporânea, penso que não há como decifrar os arcanos de nossa modernidade sem rastrear as pegadas de sua construção. Não que isto implique a crença de uma suposta linearidade de construção "evolutiva" deste percurso em direção a uma cada vez melhor e mais "progressista" humanidade, como reflexo de uma caminhada hipotética da barbárie à civilização. Pelo contrário, é minha crença inicial de que essa construção do nosso projeto de modernidade foi atravessada por contradições e contra-marchas, por perdas e ganhos e que a sociedade, necessariamente, não se tornou gradativamente "melhor" - o que implicaria uma ampla e séria discussão de valores - mas inexoravelmente se tornou diferente de si mesma, num lento e por vezes doloroso processo de superação de cada momento histórico em direção ao seguinte. Tal como Hegel já nos ensinava, ela irá superar cada um destes momentos ao reter em seu "novo" projeto de modernidade o que achou necessário, o que lhe pudesse servir para dar conta do momento seguinte, deixando para trás, na memória dos que sobreviveram e nos diversos registros escritos do que pensou fazer ou mesmo realizou, configurados em documentos, livros, revistas, jornais, almanaques, propagandas, artes e ciências, tecnologias que produziu, ou que decidiu "esquecer". Tenho me concentrado nesse "esquecimento", para que a memória de uma construção social, tão longa e fecunda, não se limite, em nós psicólogos, ao que dela restou na contemporaneidade e que condicionou as circunstâncias de nossa existência, mas que, não tendo se fundado por si mesma no presente recente, é caudatária de uma longa história de "superações" que merecem e precisam ser desveladas, pois reafirmam um laço identitário com um passado que afinal nunca passa, mas é somente "superado". Mas remeter, porém, alguém ao seu passado, não o conduz a um lugar tranqüilo e neutro dentro de si. Só aparentemente podemos pensar este lugar dentro de nós como um espaço neutro. Ao nos deslocarmos em direção a ele, espontaneamente ou por uma "provocação" externa, nos conduzimos a um lugar idiossincraticamente construído dentro de nós mesmos a partir da situação histórica que o presente determine.

A significação que constituímos é resultado de interação social, que conecta homem e mundo no processo de construção de sentidos. O social, desta forma, se produz através de uma verdadeira rede de sentidos, de marcos de referência simbólicos através dos quais os homens se comunicam, criam uma identidade coletiva e designam o seu lugar frente às instituições de poder desta dada sociedade. Através de suas representações ideológicas, exprimem seus desejos e aspirações, justificam seus objetivos, concebem o passado como o desejam recordar, constituindo-o para si, e criam utopias para o seu futuro. É assim que constituímos o passado que desejamos recordar e onde as coisas ganham a espessura que passamos a lhes atribuir transformando e assimilando o passado e o heterogêneo, permitindo-nos cicatrizar nossas feridas, reparar nossas perdas, reconstituir forças partidas e inventar, a partir daí, futuros possíveis. Lidar com o passado é mexer com fragmentos, com pedaços esparsos de memória circunstanciada, gravados em papéis, monumentos, jornais, livros, cartões, medalhas, objetos de todo gênero, nos quais a humanidade deixou impressas as marcas do que foi feito.

As crônicas são fragmentos e, ao mesmo tempo, elementos do social que tornam perceptível a entrada da modernidade no Rio de Janeiro, além da inserção de uma nova forma de pensar o mundo e de se relacionar com ele. Na esteira da Escola dos Annales, especialmente de Lucien Febvre, podemos pensar na idéia de um "instrumental intelectual"1 criado e disponibilizado em cada época (Burke, 1991). Este é o nível do cotidiano, situado "no ponto de junção do individual e do coletivo", afirma Le Goff (1995, p. 71). Lembrar a importância do psíquico nestas questões, é tornar presente a afirmação de Marc Bloch no seu livro Apologia da História, de que "os fatos históricos são por essência fatos psicológicos" (2001, p. 157). Estes fragmentos, da vida no século XIX, indicam também os sinais mais públicos e visíveis do projeto da modernidade que se expande, ao mesmo tempo que se tornam meio de divulgação eficaz do "espírito do tempo" do século XIX. A vida, exposta nas crônicas folhetinescas, proporciona uma noção do impacto da modernidade sobre os cariocas nesse período.

Fenomenologia social das crônicas folhetinescas2

Tendo assim explicitado e estabelecido estes balizamentos norteadores de minha reflexão, posso agora colocar em cena as "crônicas folhetinescas" (Ewald, 2000). Numa primeira aproximação, aponto para a amplitude de suas possibilidades como registro/desvelamento de uma visão possível de nosso passado. Através do registro destas recordações, a pena do cronista se colocava à disposição de seu coração. Idiossincraticamente, tentava eternizar no seu texto jornalístico, aparentemente banal, o seu olhar cambiante, perplexo e excitado sobre a vida em movimento, a vivida por ele e a que supunha que os demais a estavam vivendo. Escritos que, no conjunto, não formavam uma saga grandiosa da sociedade, mas lembravam uma colcha de pequenos retalhos que, bem urdidos o cronista acreditava que fossem capazes de cobrir "jornalisticamente" a lógica do que se apresentava à ele como a "face do progresso no corpo da modernidade".

Mas não se pode pensar que a literatura reproduz uma única visão de mundo, aquela que se poderia dizer dominante de um período. Cada autor representa seu mundo à sua maneira e nem todo autor é, necessariamente, um autor engajado, no dizer sartriano. Isto é similar ao que Sérgio Paulo Rouanet, de acordo com Veloso e Madeira (2000), chama de ‘ótica da vigência', em que mesmo dentro do conjunto de condições sociais e institucionais que fazem com que uma teoria exista e passe a produzir efeitos coletivos, coexistem interpretações contraditórias que nem por isso deixam de ser pertinentes pois todas são "representações construídas" pois, como reforça Antônio Cândido, em conferência pronunciada na Sociedade de Psicologia em São Paulo, em 1957, "o artista recorre ao arsenal comum da civilização para os temas e formas da obra" (p. 22).

A crônica folhetinesca, que acaba se tornando um estilo literário, nos fornece uma "historicização" do cotidiano carioca. A sociabilidade transparece na escrita do comentário semanal que, em muitos momentos, lembra o romance-folhetim que já é publicado em capítulos no rodapé do jornal. A vida na cidade do Rio de Janeiro narrada em fragmentos nos rodapés registram, representam, constroem e divulgam idéias e valores de uma realidade e se constituem como um discurso que expressa um "tempo social".

Esses textos forneciam uma descrição dos principais fatos que haviam acontecido na cidade no período de uma semana ou de quinze dias. Seus autores parecem buscar o entretenimento dos leitores, mesclando o "útil e o fútil", na expressão de Machado de Assis, mas não deixam de evidenciar aquilo que consideravam como uma necessidade para o processo de desenvolvimento do país. Vemos isso constantemente nos textos de A Semana de Francisco Otaviano de Almeida Rosa, nas cartas Ao Amigo Ausente de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, como também no Ao Correr da Pena de José de Alencar, e nas crônicas de Machado de Assis publicadas na década de 1860. Acreditava-se que o país deveria de aderir a uma ordem industrial mundial, pois ali residia a vida moderna, a civilização e o progresso Um novo modelo de ordem sócio-econômica se desvelava nas linhas das crônicas folhetinescas, modelo de ordem que já estava instalado nas grandes cidades européias e que, naquele momento, começava a dar sinais de inserção no Rio de Janeiro.

É melhor dizer desde logo, como o fez Robert Darnton, "não pretendemos ter chegado a conclusões definitivas e nítidas à maneira de uma pesquisa positivista" (1992, p. 9), mas sim ter aberto um caminho para futuras investigações em material ainda pouco explorado pelas Ciências Humanas. Seguindo, portanto, os passos da Fenomenologia como a pensava Sartre, cujos princípios também encontrei nos principais textos de Georg Simmel, tive como ponto de partida o que as crônicas apresentavam sobre a vida no Rio de Janeiro naquele período. Foi através delas que pude "perceber" algumas das possibilidades de relações sociais e a forma como as "novas idéias" penetravam na vida cotidiana do carioca.

Pelos textos de Simmel3, é possível entrever uma relação do seu modo de "olhar" para o social com a nascente Fenomenologia de Edmund Husserl, sua contemporânea. Em 1900, no seu trabalho Philosophie de l'argent, Simmel escrevia : "O sujeito e o objeto nascem do mesmo ato" (1999, p. 29). Aqui ele expressa o tema central da Fenomenologia, a relação sujeito-objeto, esta interação amalgamada da consciência com o mundo e, como toda consciência é intencional - é sempre consciência "de" alguma coisa (1966) - ela se relaciona com o vivido. Nesse processo, ele sugere que a ordem das coisas é recriada pelo sujeito a partir de sua perspectiva particular e segundo categorias que lhe são próprias (p.26), mas sem escapar do seu contexto. Husserl, por sua vez, através de uma investigação analítica da constituição do objeto enquanto pensado, mostra que a consciência é constituinte e que a "constituição", como afirma Fragata (1962), "é uma espécie de operação (...) da consciência, e do ‘eu' em particular, pela qual se unificam os elementos" (p.31). Sujeitos diante do mundo, dotamos as coisas de sentido e/ou valor, onde a subjetividade é "fruto de um amadurecimento afetivo e mental no decorrer do qual ele [o ser humano] se separa e se coloca diante da realidade. Forma para si um "eu" capaz de estabelecer uma escala de preferências, mostrando aquilo que aprecia ou que detesta, como também de expressar sua autonomia com relação aos elementos do meio ambiente. (...) A verdadeira subjetividade se afirma nessa condição social, histórica, em que o homem toma consciência do fato de habitar dois mundos e de dominá-los, da mesma forma que ele domina, à custa de trabalho, o indecifrável absurdo da vida" (Moscovici, 1990, p. 270). Assim eu sou, enquanto consciência intencional, fundamentalmente interação com o mundo, mundo que me é dado, já estabelecido, material e cultural.

A Fenomenologia procura mostrar a relação existente entre homem e mundo e o papel da consciência enquanto constituinte desse mundo. O homem em situação, como evidencia Sartre4, está totalmente "inundado" por seu mundo e não há como escapar dele na constituição da subjetividade. Nesta perspectiva, as crônicas folhetinescas informam sobre uma experiência/vivência do século XIX, que procurei organizar em torno da idéia de modernidade. Nelas pode-se encontrar os sentidos da sociedade vigentes naquele momento, seus valores, suas idéias, seus desejos ; encontra-se enfim um vivido que é circunstanciado, aquele do Segundo Reinado. As crônicas folhetinescas representam, desta forma, uma experiência do Segundo Reinado e se construíram como discurso sobre aquela realidade circunstanciadas pelo "espírito do tempo".

Ao se voltar para o cotidiano, assim como faziam as crônicas folhetinescas, Simmel e Sartre procuram refletir sobre o enigma dos laços entre as forças materiais e intelectuais que modelam uma época. Há aqui, inequivocamente, a presença da tese fenomenológica da relação homem/mundo, em que todos os tipos de fenômenos "supõem uma troca entre indivíduos, que compartilham ou disputam entre si sentimentos de ódio, de amor, de inveja, o prazer de viver em comum. Em suma, eles envolvem sempre elementos psíquicos. Portanto, não é possível dispensar hipóteses relativas a eles para explicar as formas que tomam as relações humanas" (Moscovici 1990, p. 243). Desta forma, fala-se dos homens enquanto pessoas que, de uma maneira ou de outra, possibilitam, auxiliam, facilitam, se resignam ou lutam, no processo de construção de uma sociedade.

Seguindo os passos de Sartre (1971, 2002), o estudo das crônicas folhetinescas procura evidenciar um sistema de investigação voltado para a realidade concreta do cotidiano se mantendo fiel à premissa fenomenológica de que o ser humano, ao falar da realidade, vive uma unidade indivisa de consciência-corpo-mundo. Desta forma, ao falar da sua realidade circundante, o cronista-folhetinista fala da sua própria consciência enquanto relação com essa realidade , fala subjetivamente do objetivo e fornece a possibilidade de chegarmos a esse "objetivo", a idéia de modernidade no século XIX no Rio de Janeiro. Aqui, portanto, estão presentes as idéias-chave da psicanálise existencial, como elaborada por Sartre no L´être et le néant (1971), primeiramente, e desenvolvida em trabalhos subseqüentes como Baudelaire (1963), Saint Genet (2002) e L´idiot de la familie (1971).

Para compreender o homem, segundo essa perspectiva, é necessário percebê-lo envolto numa "moldura", num tempo, numa época com valores determinados pelos elementos que vão lentamente compondo essa "moldura". Se "o homem não é senão homem em situação", como afirma Sartre (1964, p. 27), é nessa "moldura" que se deve buscá-lo, é na ação, no fazer do seu cotidiano que o encontramos e o conhecemos. Discutindo o que é a modernidade, Gumbrecht (1998) enfatiza que para compreendermos uma determinada época, é necessário que compreendamos os seus processos de transformação. Desta forma, a narrativa historiográfica para se entender uma determinada época, envolve a escolha de um ponto focal sobre o qual se avaliará as mudanças (p. 70). A narrativa que venho construindo, de um ponto de vista transdisciplinar, tem as crônicas folhetinescas como fonte e a inserção modernidade como ponto focal. Fundamentalmente, os meios de comunicação, como demonstra Gumbrecht, têm sempre tido a possibilidade de transformar "a mentalidade coletiva, imprimindo-se na relação que as pessoas mantêm com seus corpos, com sua consciência e com suas ações" (1998, p.71).

Simmel insiste que ideais, desejos, motivações pessoais, ações conduzidas ou não por crenças religiosas ou questões morais, imprimem um determinado curso aos acontecimentos. Pensar deste ponto de vista os cronistas-folhetinistas, é pensá-los como pessoas inseridas num processo de assimilação da valorização do progresso, do novo, do moderno, mas também como críticos desse mesmo processo. É pensá-los como parte de um projeto amplo na sociedade cuja visão pessoal é desenvolvida em seus textos, quer eles atuem criticando a maneira como reproduzimos ou assimilamos valores extrínsecos ao Brasil, quer como arautos e divulgadores das novidades e da civilização como solução para a vida brasileira.

Para entender esta modernidade (Ewald 2000, 2001, 2001a), parti de noções-chave que norteavam as grandes cidades da Europa nos meados do século XVIII evidenciados nas crônicas folhetinescas, especialmente a idéia de progresso, cujo conceito estava estreitamente vinculado ao processo de industrialização que se viveu a partir de então. Usei as crônicas folhetinescas para desvelar uma modernidade que se constituía no Rio de Janeiro, não como um processo histórico e geograficamente isolado, mas como parte da lógica da modernidade que se instituía na maior parte do Ocidente. Ao mesmo tempo, percebe-se uma concordância na literatura de que a idéia de modernidade é atravessada pela idéia do ‘novo' e uma unanimidade sobre suas origens estarem fundadas no capitalismo-industrial, cujas idéias fundamentais estão baseadas na economia de mercado, no valor de troca, na propriedade privada, na racionalidade instrumental, na quantificação, na legitimidade burocrática, no espírito de cálculo racional e, como acredita Simmel, no dinheiro como móvel organizador da vida.

 

 

Referências Bibliográficas

Fontes primárias

ALENCAR, José M. de. Ao Correr da Pena. São Paulo : Melhoramentos, [1955 ?]. Originalmente publicados no Correio Mercantil. Seção Folhetim.

_____. Última Fase. In Obra Completa. 4 v. Rio de Janeiro : José Aguilar, 1960. V. 4. Artigos publicados no Jornal do Commercio.

ALMEIDA ROSA, Francisco Otaviano de. A Semana. Textos publicados no Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, entre 1852-1854 na seção Folhetim do Jornal do Commercio.

ASSIS, Machado de. Commentarios da Semana (1861-1862). Chronicas. V.20. Rio de Janeiro : W. M. Jackson, 1946. Originalmente publicados no Diario do Rio de Janeiro entre 1 nov. de 1861 e 5 de maio de 1862.

_____. Ao Acaso - Chronicas da Semana (1864-1865). Chronicas. V.21. Rio de Janeiro : W. M. Jackson, 1946. Originalmente publicados no Diario do Rio de Janeiro entre 12 de jun. 1864 e 16 maio de 1865.

_____. Cartas Fluminenses. Chronicas. V.21. Rio de Janeiro : W. M. Jackson, 1946. Originalmente publicados no Diario do Rio de Janeiro entre 5 de mar. de 1867 e 12 de mar. de 1867.

_____. Chronicas (1862-1863). Chronicas. V.20. Rio de Janeiro : W. M. Jackson, 1946. Originalmente publicados em O Futuro.

_____. Aquarellas (1859). Chronicas. V.20. Rio de Janeiro : W. M. Jackson, 1946. Originalmente publicados em O Espelho.

_____. Chronicas do Dr. Semana. Chronicas. V.20. Rio de Janeiro : W. M. Jackson, 1946. Originalmente publicados na Semana Illsustrada . Ver a discussão de Magalhães Júnior sobre estas crônicas em Machado de Assis Desconhecido.

CARLOS. Chronicas da Quinzena. Revista Popular (1859-1861), Rio de Janeiro, continuadas por O Velho, (1861-1862).

FRANÇA JÚNIOR. Política e Costumes. Folhetins Esquecidos (1867-1868). Org. R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1957. Originalmente publicados no Correio Mercantil entre 1867 e 1868 na seção Folhetim.

PARANHOS, José Maria da Silva, Visconde do Rio Branco. Cartas Ao Amigo Ausente. Rio de Janeiro : Instituto Rio Branco, 1965. Originalmente publicados no Jornal do Commercio com o título "Ao Amigo Ausente", entre 1851-1852 na seção Folhetim do Jornal do Commercio.

Fontes Secundárias

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2001.

BURKE, P. A Escola do Annales 1929-1989.São Paulo : UNESP, 1991.

BURGUIÈRE, A. Dicionário das Ciências Históricas. Rio de Janeiro : Imago, 1993.

DARTON, R. Edição e Sedição. O universo da literatura clandestina no século XVIII. São Paulo : Companhia das Letras, 1992.

EWALD, A. P. Fragmentos da Modernidade nas Crônicas folhetinescas do Segundo Reinado. Tese de Doutorado em Comunicação e Cultura, Escola de Comunicação, UFRJ, 2000.

_____. Tecnologia e Progresso : o Brasil civiliza-se no século XIX. Logos, Comunicação e Universidade, Rio de Janeiro, Ano 8, n. 14, p. 62-71, 2001.

_____. Crônicas Folhetinescas e a construção da modernidade carioca no século XIX. In : Anais das Terças Transdisciplinares : experimentando a fronteira entre a Psicologia e outras práticas teóricas. Rio de Janeiro : NAPE - Instituto de Psicologia - UERJ, CRP/05, 2001a. v. 1, p. 193-204.

FRAGATA, J. Problemas da Fenomenologia de Husserl. Braga : Livraria Cruz, 1962.

GONZÁLEZ REY, Fernando. Sujeito e Subjetividade : uma aproximação histórico-cultural. São Paulo : Pioneira Thomson Learning, 2003.

GUMBRECHT, Hans U. A Modernização dos Sentidos. São Paulo : Ed. 34, 1998.

HUSSERL, E. Méditations Cartésiennes, Paris : J. Vrin, 1966.

LE GOFF, Jacques. As Mentalidades. Uma história ambígua. In : LE GOFF, J. e NORA, P. História. Novos Objetos. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1995.

MOSCOVICI, Serge. A Máquina de Fazer Deuses. Rio de Janeiro : Imago, 1990.

SARTRE, J ;-P. L´être et le néant. Paris : Gallimard, 1971.

_____. Baudelaire. Paris : Gallimard, 1963.

_____. Saint Genet. Ator e Mártir. Petrópolis, RJ : Vozes, 2002.

_____. L´idiot de la familie. Paris : Gallimard, 1971 (V. I)

_____. Situation, II. Qu'est-ce que la literature ?. Paris : Gallimard, 1964.

SIMMEL, G. Philosophie de la modernité (1901). Paris : Payot, 1989.

_____. Simmel e a Modernidade. Brasília : UNB, 1998.

_____. El individuo y la Libertad. Ensayos de crítica de la cultura. Barcelona : Península, 1998.

_____. Sociologie et épistémologie. Paris : PUF, 1991.

_____. Philosophie de l'argent. Paris : PUF, 1999.

_____. Filosofia do Amor. São Paulo : Martins Fontes, 1993.

VELOSO, M. ; MADEIRA, A. (Orgs.). Leituras Brasileiras. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2000.

 

Notas 

1 A noção está ligada ao conceito , "aparelhagem mental" desenvolvido por Lucien Febvre ao longo de suas pesquisas. Para Febvre, "A cada civilização cabe sua aparelhagem mental... ela vale por uma época que a utiliza ; não vale pela eternidade, nem para a humanidade". Ele estava convencido de que os homens do passado "não viviam, não agiam como nós", portanto, é necessário explorar exaustivamente uma cultura das mais variadas perspectivas pois é com esses "instrumentos" que se constrói a experiência, tanto individual quanto coletiva (Febvre apud Revel, "Aparelhagem Mental", In : Burguière, 1993, p.66-67 e p.326-7).

2 Este termo foi criado para designar os textos publicados em jornais e revistas nos meados do século XIX que passaram a ser conhecidos tanto por crônicas como por folhetins, diferenciando-os da crônica do fim do século XIX e início do século XX e, ao mesmo tempo, dos folhetins romances, também publicados nos rodapés dos jornais.

3 Coletânea de textos em espanhol : El individui y la libertad, ensayos de crítica de la cultura (1998) ; coletânea em francês : Phhilosophie de la modernité. La femme, la ville, l'individualisme (1989) e Sociologie et épistemologie (1991). Ver também coletânea de seus textos em português organizada por Jessé Souza e Berthold Öelze, Simmel e a modernidade (1998) ; Filosofia do Amor (1993).

4 Este conceito atravessa toda a obra de Sartre, mas sugiro ver Situations II - Présentations des Temps Modernes, 1964 p. 27-28, em que ele expõe rapidamente esta idéia]

Répondre à cet article



|